A faca de pedra e seu mal-estar

Conceição Beltrão Fleig[1] e Mario Fleig[2] 

          De onde provém o mal-estar que nos invade e que perpassa nossa cultura? Poderíamos supor que suas origens se encontram nas ameaças que a natureza nos faz, na relação com nossos semelhantes, na decrepitude de nosso corpo ou em outras motivações que podemos encontrar. Se assim fosse, poderíamos acalentar a esperança de um dia, graças aos avanços da ciência, debelar o mal-estar de nossas vidas. Isso nos leva numa outra direção: o mal-estar provém não de nossas relações com a natureza, com o semelhante e conosco mesmos, mas dos impasses de nossa relação com o Outro. A afronta ao Outro, rompendo o gozo infinito e pleno que aí se configura, joga o sujeito e a cultura no mal-estar. A castração não cai apenas do lado do sujeito, mas atinge, antes de mais nada, o Outro como tal. Que ele caia de seu lugar de fundamento e garantia absoluta resulta na emergência do mal-estar no lado do sujeito. É nesta direção que vai nossa primeira proposta de leitura dos textos freudianos da segunda tópica, que inclui O mal-estar na civilização. Podemos afirmar que a problemática gira em torno do conceito de supereu, ou seja, a questão do pai. Que a problemática do pai seja central a partir dos textos freudianos de 1920, ou seja, a partir de Além do princípio de prazer, transparece até mesmo para um leitor menos atento. Vejamos como Freud nos coloca isso:

 

Desconfio que o leitor tem a impressão de que nosso exame do sentimento de culpa quebra a estrutura deste ensaio; que ocupa espaço demais, de maneira que o resto do tema geral, ao qual não se acha sempre estreitamente vinculado, é posto de lado. Isso pode ter prejudicado a estrutura do trabalho, mas corresponde fielmente à minha intenção de representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização, e de demonstrar que o preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização é uma perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa. (Freud, 1930a [1929], p. 158).

 

          Ora, a internalização da autoridade paterna constitui o supereu, origem do sentimento de culpa. Que o mal-estar apareça tanto para os indivíduos quanto na civilização se deve à origem comum do supereu cultural e individual: “O supereu de uma época de civilização tem origem semelhante à do supereu de um indivíduo. Ele se baseia na impressão deixada atrás de si pelas personalidades dos grandes líderes [...]” (Freud, 1930a [1929], p. 166).

          Nossa segunda proposta de leitura do texto freudiano ultrapassa o exame de sua problemática interna e dirige o olhar para o contexto em que foi escrito e a quem se endereça. O contexto trazia inúmeros impasses aos quais se volta o escrito freudiano. Cabe ressaltar o grande conflito entre indivíduo e sociedade examinado por Freud. Mas pensamos que o endereço do texto que importa considerar é muito mais específico: é um texto que trata da relação entre os analistas e com a instituição psicanalítica, ou seja, o primeiro endereçamento do texto é aos analistas. Como Jones (1989) nos relata, Freud não estava satisfeito com a organização criada em 1910 - a Associação Psicanalítica Internacional -, lamentando que a tivesse feito se formar tão cedo. O mal-estar permeava as relações entre os analistas, seja pela divisão entre judeus e não judeus, seja pela classificação por nacionalidade, seja pela maior ou menor fidelidade teórica ao fundador, seja também pelos impasses oriundos da questão da análise leiga. Isto tudo atravessado pelas rivalidades entre os irmãos e a ameaça da diluição da especificidade da psicanálise.

          Se tomamos essa segunda proposta de leitura, caberia então examinar a passagem do indivíduo para a sociedade, pela mediação da família, realizada pela criação de uma instituição que reúne analistas. Não é agora que faremos um trabalho de tal envergadura - para isso, podemos nos servir dos documentos existentes e dos historiadores do movimento psicanalítico. Cabe apenas indicar o que consideramos ser o principal ponto de impasse da solução de 1910 e ao qual responde a produção freudiana posterior.

          Nossa terceira proposta de leitura desemboca na elucidação do enlace entre a problemática interna central do texto de 1930 - a questão do supereu - e os impasses aos quais o texto se endereça, ou seja, à comunidade psicanalítica da época. Sabemos das inquietações de Freud acerca dos destinos da psicanálise e do mal-estar que permeava as tramitações institucionais. Somos de opinião que os escritos de Freud em torno da questão do pai ao mesmo tempo em que interpretavam, provocavam o recalcamento dessa questão. Encontramos a melhor indicação disso na própria fundação da instituição psicanalítica em 1910 e sua continuidade dentro de um modelo burocrático e centralizador, modelo este proposto pelo próprio Freud. O recalque da ferocidade do supereu, que Lacan nomeia como supereu obsceno e feroz, que é o gozo pelo lado materno, resultou numa leitura particular da segunda tópica, onde fica negligenciada sua ferocidade e se funda uma interpretação normativa do supereu. Com isso, se supõe que essa mesma leitura possa fundar a instituição psicanalítica. Ou seja, a normativização burocrática é dada como ordenador fundante da IPA. Os que se seguiram a Freud, seus discípulos, recalcaram a questão do pai na psicanálise e na própria obra dele, amansaram o supereu feroz e obsceno e recuaram diante da questão do gozo. Estas estratégias tinham como alvo principal debelar o mal-estar no campo da psicanálise. O dispositivo burocrático permitiria um convívio pacífico com o Outro e um laço social calcado num ideal de relações igualitárias. Ora, o que fica recalcado nesse dispositivo igualitário, portanto imaginário, é a diferença, ou seja, a forma como cada um se defronta com o obscuro desejo do Outro. Isto é, como cada um se enfrenta com a dívida simbólica. Se a angústia, considerada como sinal no eu da proximidade do perigo extremo, se produz ali onde o sujeito se defronta com a iminência da entrega à goela voraz do Outro, o mal-estar, enquanto se manifesta na cultura, revela um recusa da entrega daquilo que o Outro nos exige. Há um preço a pagar para o supereu, o preço da separação e da singularidade do desejo. Não há como se furtar a libra de carne que nos é exigida em troca da palavra.

       Ora, o mal-estar na psicanálise se produz ali onde estamos submetidos à castração, determinando o estilo e os mecanismos institucionais. A instituição psicanalítica ocupa o lugar da presentificação da castração, operando-a para cada analista e ao mesmo tempo podendo preservá-lo das ilusões narcísicas das quais ele pode ser presa tão fácil no amor de transferência. No usufruto da aspiração a ser amado ele pode gozar, transgredindo o princípio da abstinência, transformando-se na grande goela à qual o analisante pode ser demandado a se entregar. De outro lado, supor resolver o mal-estar na instituição psicanalítica dispensando-a pode ser uma ação de boa vontade entre os homens de fé. Mas isso é se supor acima da castração. Nesta posição, não resta outra saída senão se erigir em Outro, dispersando o movimento psicanalítico.

          Retomando nossa origem judaico-cristã, vemos que a fundação se dá na exigência de um pedaço de nosso corpo. É o que encontramos no relato do episódio fundador. Moisés, retornando ao Egito após seu exílio, enfrenta-se com a ameaça implacável:

 

Pelo caminho da pousada, Javé saiu-lhe ao encontro e ameaçava fazê-lo morrer. Então Séfora, tomando uma faca de pedra, circuncidou seu filho e tocou os pés dele, dizendo: “Tu és para mim esposo de sangue”. E Javé o deixou, ao dizer ela ‘esposo de sangue’, por causa da circuncisão. (Ex 4, 24-26).

 

          O ato de Séfora operou uma castração em todos os personagens deste mito e o preço a ser pago situa-se na impossível libra de carne cobrada pelo Mercador de Veneza. Lacan lembra que pagamos com o ato, com as palavras e com o próprio ser. Safar-se deste pagamento implica ficar entregue ao imperativo do supereu: goza! A alternativa que a instituição psicanalítica oferece é a mediação entre o sujeito e o Outro, protegendo o analista do irresistível fascínio do gozar. Como diz o ditado: onde se ganha o pão, não se come a carne!

 

 

 

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930a [1929]). Rio de Janeiro: Imago, 1974.

 

JONES, Ernest. Vida e obra de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1989, 3v.

 

[1] Psicanalista, membro fundador da Escola de Estudos Psicanalíticos, analista membro da Association Lacanienne Internationale. fleigfatima@gmail.com

[2] Psicanalista, presidente e membro fundador da Escola de Estudos Psicanalíticos, analista membro da Associação Lacaniana Internacional. mfleig@terra.com.br