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Circulação da pulsão no aparelho psíquico

Sônia Maria Perozzo Noll

“Na busca de nossa verdade e de outros conhecimentos, estamos sempre descobrindo novos caminhos que nos possibilitam resgatar o real sentido do nosso viver” (Hirsch,1996, p.8 [1])
 

Introdução
 

Pulsão – Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força que faz o organismo tender para um objetivo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal; o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir suas metas (Laplanche e Pontalis,1995, P.394)
 

Este trabalho tem como objetivo pensar a pulsão desde seu início no projeto, quando considerada como energia que circula no aparelho psíquico. Para compreendermos o significado de pulsão, faz-se necessário entender também, os conceitos de instinto e libido.
 

Pulsão é pressão ou força, concebida como um fator quantitativo econômico, uma exigência de trabalho imposta ao aparelho psíquico […] Um conceito-limite entre o psiquismo e o somático”. Está ligada à noção de representante, como uma espécie de delegação enviada pelo somático ao psiquismo. (Laplanche e Pontalis,1995 p.395 )[2]
 

Na medida em que a pulsão sexual representa uma força que exerce uma “pressão”, a libido é definida por Freud como energia dessa pulsão. É esse aspecto quantitativo que vai prevalecer no que se tornará, a partir da concepção do narcisismo e de uma libido do ego, “a teoria da libido”.

É difícil apresentar uma noção satisfatória da libido. Não apenas a teoria da libido evoluiu com as diferentes etapas da teoria das pulsões, como o próprio conceito está longe de ter recebido uma definição unívoca.
Nos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), Freud fala da teoria da libido como uma força quantitativamente variável que poderia medir os processos e transformações ocorrentes no âmbito da excitação sexual, com um caráter qualitativo.

 

No “Vocabulário de Psicanálise”, de Laplanche e Pontalis, a escolha do termo instinto como equivalente inglês ou francês de Triebnão é só uma inexatidão de tradução, como ameaça introduzir uma confusão entre a teoria freudiana das pulsões e as concepções psicológicas do instinto animal, e apagar a originalidade da concepção freudiana, particularmente a tese do caráter relativamente indeterminado do impulso motivante e as noções de contingência do objeto e da variabilidade das metas.
 

Também para Laplanche e Pontalis, o termo Instinto designa esquema de comportamento herdado, próprio de uma espécie animal, que pouco varia de um indivíduo para outro, que se desenrola segundo uma seqüência temporal pouco suscetível de alterações e que parece corresponder a uma finalidade.
 

O tema, por ser muito abrangente e complexo está longe de pretender entender todos os caminhos da pulsão mas apenas nortear os caminhos por onde ela passa, podendo dar seqüência em outros trabalhos especificando melhor cada etapa desse processo.
 

Os conteúdos abordados neste trabalho têm como principal referência o texto de Garcia Rosa sobre as pulsões, Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis e os textos de Freud sobre o Instinto e Suas Vicissitudes e outros complementares citados na bibliografia.
 

No texto de Garcia Rosa[3], o conceito de pulsão, do termo “Trieb” é corrente na língua alemã e seu aparecimento nos textos de Freud se dá nos anos de 1890, com empregos tímidos nos quais a noção aparece de forma não muito clara. Nestes textos iniciais, para os termos pulsão (Trieb), Freud utilizava termos substitutos como “excitação pulsional” (Triebregung), “moção de desejo” (Wunschregung), “estímulo pulsional” (Triebreiz), “excitação” (Erregung) e outros mais, o que dificulta o rastreamento da gênese do conceito. Em nenhum momento emprega como sinônimo os termos Trieb (pulsão) e Instinkt (instinto).

Por uma questão de tradução da palavra (Trieb), na obra de Freud – Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Segunda edição – 1987, a tradução do termo Trieb vem como instinto, mas o seu entendimento no texto é para o termo pulsão.
 

A criação ou construção de um conceito como pulsão implica avanços e recuos, desvios, atalhos, eliminação de caminhos desnecessários e estabelecimento de novas articulações.
 

A pulsão sexual (sexualtrieb), faz sua entrada conceitual na obra de Freud nos Três Ensaios (1905), porém ainda com uma indefinição quanto a pulsão ser psíquica ou não psíquica. Quando introduz a idéia de “representante psíquico”, Freud declara num acréscimo feito em 1915, que a pulsão é um conceito que se situa na fronteira entre o anímico e o corporal.
 

Pulsão Sexual – Pressão interna que, segundo a psicanálise, atua num campo muito mais vasto do que o das atividades sexuais no sentido corrente do termo. Nela se verificam eminentemente algumas das características da pulsão que a diferenciam de um instinto: o seu objeto não é predeterminado biologicamente e as suas modalidades de satisfação são variáveis, mais especialmente ligadas ao funcionamento de zonas corporais determinadas (zonas erógenas), mais suscetíveis de acompanharem as atividades mais diversas em que se implica que a pulsão sexual não está unificada desde o início, mas que começa fragmentada em pulsões parciais cuja satisfação é local (prazer de órgão)-( Laplanche e Pontalis, 1995 p. 403).
 

A psicanálise mostra que a pulsão sexual no homem está estreitamente ligada a um jogo de representações ou fantasias que a especificam. Só ao fim de uma evolução complexa e aleatória ela se organiza sob o primado da genitalidade e reencontra então a fixidez e a finalidade aparentes do instinto.

Para Laplanche e Pontalis, do ponto de vista econômico, Freud postula a existência de uma energia única nas vicissitudes da pulsão sexual: a libido. Podemos entender como libido:
 

Energia postulada por Freud como substrato das transformações da pulsão sexual quanto ao objeto (deslocamento dos investimentos), quanto à meta (sublimação, por exemplo) e quanto à fonte da excitação sexual (diversidade das zonas erógenas)[…] Do ponto de vista dinâmico, Freud vê na pulsão sexual um pólo necessariamente presente do conflito psíquico: é o objeto privilegiado do recalcamento no inconsciente. (p. 403)
 

A atividade do aparelho mental mais desenvolvido está sujeito ao princípio do prazer e está regulada por sentimentos de prazer-desprazer, onde os sentimentos desagradáveis estão relacionados a um aumento de quantidade de energia no aparelho e prazer está relacionado à diminuição do estímulo. A finalidade da pulsão é sempre a satisfação, que só pode ser obtida eliminando o estado de estimulação na fonte e, para isso poderá haver diferentes caminhos para satisfazê-los.
 

O objeto de um instinto (pulsão) é a coisa pela qual ele atinge a sua finalidade. O objeto não é necessariamente algo estranho: poderá igualmente ser uma parte do próprio corpo do indivíduo. Pode ser modificado quantas vezes for necessário no decorrer das vicissitudes que o instinto (pulsão) sofre na sua vida, sendo que esse deslocamento do instinto (pulsão) desempenha papéis altamente importantes (Freud,1915, p. 143).[4]
 

Uma fixação ocorre de uma ligação forte da pulsão com o objeto, freqüentemente em períodos iniciais do desenvolvimento da mesma, pondo fim à sua mobilidade por meio de sua intensa oposição ao desligamento.
 

Segundo Freud, no Vocabulário de Psicanálise, esse dualismo opera desde as origens da sexualidade, pois a pulsão sexual se destaca das funções de autoconservação em que a princípio se apoiava; ele procura explicar o conflito psíquico, pois o ego encontra na pulsão de autoconservação o essencial da energia necessária à defesa contra a sexualidade.(Essa visão é modificada em 1920, em ‘Além do Princípio do Prazer’).
 

A intensidade das pulsões que se originam no corpo e atuam na mente são distinguidos por qualidades diferentes. Freud propôs distinguir dois grupos de pulsões primordiais: as pulsões do ego ou de autoconservação e as pulsões sexuais.
 

Os instintos (pulsões) sexuais são numerosos, emanam de grande variedade de fontes orgânicas, atuam em princípio independentemente um do outro e só alcançam uma síntese mais ou menos completa numa etapa posterior. A finalidade pela qual cada um deles luta é a consecução do “prazer do órgão”, somente quando a síntese é alcançada é que eles entram a serviço da função reprodutora, tornando-se então identificáveis, de um modo geral, como instintos(pulsões) sexuais. Logo que surgem, estão ligados aos instintos(pulsões) da autopreservação, dos quais só gradativamente se separam. (Freud, 1915,p.146)
 

No texto de Garcia Rosa sobre a Pulsão, declara:
 

A pulsão tem sua fonte no corpo. A fonte da pulsão é um processo excitador interno a um órgão, e sua meta imediata consiste em cancelar esse estímulo do órgão. Os órgãos do corpo são, portanto, a fonte exclusiva das pulsões (p. 82).
 

Na época em que Freud escreveu o projeto[5], distingue os estímulos provenientes do mundo exterior e interior como Qn e Q, cada um deles fazendo diferentes exigências ao aparato psíquico. Para Freud, os estímulos endógenos são os precursores da pulsão[6]. E foi precisamente isso que Freud apontou como a mola pulsional do mecanismo psíquico como os derivados da pulsão.
 

No projeto, o aparato psíquico é formado por três sistemas de neurônios: f y w.
 

A energia exógena ou Q’ (quantidade exógena) entra no aparelho pelo sistema f, e mesmo assim apenas uma pequena quantidade de energia ingressa no mesmo, a qual é filtrada pelas telas protetoras que só deixam passar frações de Qn’, através dos órgãos sensoriais (órgãos dos sentidos), que passa pela massa cinzenta da medula espinhal e que tem contato com o mundo externo. Para o aparato psíquico essa quantidade de energia é tão grande que há uma descarga de energia quase total das Qn’ que penetram nos neurônios. Neste sistema vale o princípio da inércia que tende a se livrar de toda energia circulante.
 

Assim como no sistema f, também o sistema y, a tendência é a descarga, mas deve existir um mínimo de energia para que o aparelho possa funcionar. Essa energia não pode ultrapassar um determinado limiar pois o prazer e o desprazer está relacionado com a quantidade de energia circulante no aparato. Energia muito acima de certo limiar é sentida como desprazer e com tendência a descarga, e energia constante é igual a prazer. Neste sistema vale o princípio da constância.
 

O sistema y de neurônios é alimentado a partir de uma fonte exógena, através do sistema f de neurônios, e outra endógena que atinge diretamente o sistema y núcleo.
 

Para Freud, no Projeto, os neurônios y devem ser divididos em dois grupos: os neurônios do pallium, que são catexizados a partir de f, e os neurônios nucleares, catexizados a partir das vias endógenas de condução. As vias de condução y se enchem por soma até ficarem permeáveis (o que permite a soma é a pequenez de cada estímulo).
 

O fato de que as Qn’s endógenas atuam por soma significa que essas Qn’s são constituídas de parcelas de excitação mínimas, menores que a constante. A via endógena de condução está, portanto, e apesar disso, completamente facilitada. No momento em que a via de condução é re-ajustada, nenhum limite adicional é fixado para essa soma. Aqui, y está à mercê de Q, e é assim que surge no interior do sistema o impulso que sustenta toda atividade psíquica. Conhecemos essa força como vontade, como o derivado das pulsões.
 

Os afetos e estados de desejo envolvem um aumento de tensão em y, produzindo, no caso do afeto, pela liberação súbita e, no de um desejo, por soma. O estado de desejo resulta numa atração positiva para o objeto desejado, ou mais precisamente, por sua imagem mnêmica. Eis aqui a atração do desejo primário (Freud, p. 436).[7]
 

As excitações decorrentes do mundo externo só chegam a y via f, o que já é um fator de amortecimento dessas intensidades, e a condução de f a y se faz através de uma ramificação progressiva, onde f chega a y através de caminhos que se bifurcam e portadores de uma pequena parte da Q originária.
 

Com os estímulos provenientes da fonte endógena isso não ocorre pois o sistema y está em conecção direta com as Q provenientes do interior do corpo, e não pode fugir disso.
 

A função do aparato é ordenar esse caos de intensidades dispersas, transformá-las e tornar possível a ação específica a fim de evitar um acúmulo de tensão interna.
 

O aparato tem como função a captura, transformação e ordenação das intensidades que chegam de fora do aparato e as que atingem com maior intensidade são as pulsionais.
 

A pulsão não atua como uma força de choque momentânea, mas sempre como uma força constante. Os estímulos provenientes da fonte exógena operam como uma força momentânea, podendo ser removido por uma ação adequada, enquanto os estímulos endógenos atuam como uma força constante, contra a qual a fuga é ineficaz.
 

Na Carta 75 [8], do volume I das Obras de Freud, fala que a liberação da sexualidade não ocorre apenas mediante um estímulo periférico sobre os órgãos sexuais, ou mediante as excitações internas que surgem desses órgãos, mas também a partir de idéias, isto é, a partir de traços de memória, portanto, também por via de uma ação postergada. A ação retardada ocorre em conexão com as lembranças de excitações das zonas sexuais abandonadas.
 

Na Carta 52 [9], Freud diz que a lembrança se comporta como se se tratasse de um evento atual. Esse caso só pode ocorrer com os eventos sexuais, porque as magnitudes das excitações causadas por eles aumentam por si mesmas com o tempo, com o desenvolvimento sexual.
 

Para Garcia Rosa, a relação de pulsão e instinto, e o conceito de apoio precisa ser pensado. O auto-erotismo é considerado o momento primeiro da sexualidade infantil no qual o prazer do órgão se acrescenta ou diferencia dos comportamentos adaptativos. O auto-erotismo marcaria o ponto de disjunção do pulsional em relação ao instintivo.
 

A noção de instinto é de extrema variação de um campo para outro e de autor para autor ou de um momento para outro, não apenas quanto a sua compreensão mas também quanto a sua extensão, mas seja qual for a concepção de instinto, ele sempre implica um padrão estável de comportamento, faz apelo a esquemas inatos e tem uma finalidade adaptativa, características ausentes no conceito freudiano das pulsões. Isso só aponta para a precariedade da hipótese do apoio e de seu poder explicativo para a teoria psicanalítica. A hipótese de apoio são mais explicativas mas não observáveis.
 

As pulsões sexuais são numerosas, atuam com independência umas das outras e aspiram à obtenção do prazer do órgão. Não tem por finalidade atender às exigências do biológico, não são adaptativas. A tese de Freud é que essas pulsões surgem quando o prazer torna-se autônomo em relação à satisfação das necessidades, mas que este surgimento não se faz sem um apoio na função biológica ou, como ele vai dizer em 1914, nas pulsões de autoconservação.
 

É somente quando o prazer de sugar adquire independência da função de nutrição, o que caracteriza o sugar auto-erótico, que podemos falar em pulsão sexual.
 

A tentativa de fazer uma distinção da natureza do órgão de onde provém o estímulo é modificada no texto sobre o Narcisismo, onde Freud estende a erogeneidade a todos os órgãos do corpo.
 

No texto de Garcia Rosa sobre a pulsão, Freud utiliza quatro termos importantes para a compreensão da pulsão: pressão, alvo, objeto e fonte. A montagem da pulsão nos quatro aspectos apontados acima, embora o termo pulsão seja empregado pura e simplesmente, se refere a pulsão sexual.
 

Por pressão de uma pulsão entende-se seu fator motor, a soma de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa.
 

Se pegarmos o Projeto de 1895 como referência auxiliar, veremos que os neurônios y não formam apenas um sistema condutor da energia. A capacidade de armazenar energia, com vistas a uma ação específica e às discriminações que ela implica, impele que o vejamos apenas como um condutor de energia. Seu papel é o de transformador de energia acumulada, que implica uma codificação desse material. A Qn armazenada no sistema y tende à descarga através de caminhos motores, cujo objetivo é o alívio da tensão em y. Tal alívio só ocorrerá se for eliminado na fonte corporal pela ação específica.
 

A pulsão não está a serviço de nenhuma função biológica pois esta é marcada por um ritmo, por uma alternância, por uma possibilidade de satisfação através do estado de estimulação na fonte.
 

O alvo da pulsão é a satisfação, que só pode ser alcançada cancelando-se o estado de estimulação na fonte da pulsão. O alvo permanece invariável para todas as pulsões, mas os caminhos podem ser diversos, podendo ter alvos intermediários que podem se permutar produzindo satisfações parciais.
 

Para Garcia Rosa, surge a questão, se há alguma satisfação que não seja parcial? O alvo da pulsão, a satisfação, é para não ser atingido, e isto não por falta de meios adequados mas pela própria natureza da pulsão, ou há que se repensar o próprio conceito de satisfação, distinguindo-se uma satisfação plena, impossível de ser atingida, de uma satisfação parcial, sempre atingida. Freud nos fala de pulsões de alvo inibido. É o caso da sublimação, que envolve uma satisfação parcial, e do recalque e demais destinos da pulsão. Também um sintoma não é menos satisfação da pulsão do que um ato sexual. O problema está na impossibilidade da pulsão ser satisfeita ou, ao contrário, nas mil e uma maneiras dela ser parcialmente satisfeita.
 

Segundo Garcia Rosa, a tese de Freud é que não apenas o alvo da pulsão é a satisfação, mas que ela já foi obtida um dia, na pré-história individual. A busca da satisfação procura reeditar uma satisfação primeira. Cada objeto apropriado pela pulsão revela que não é através dele que ela encontrará satisfação, embora uma satisfação parcial seja obtida. Isso ocorre pelo princípio do prazer e, frente ao impossível da satisfação da pulsão, o aparato psíquico responde com o possível do prazer obtido com os objetos.
 

O objeto da pulsão, é aquilo no qual ou pelo qual ela pode atingir seu alvo. É o mais variável na pulsão; não está ligada originalmente a ela apenas pela sua peculiar aptidão para possibilitar a satisfação.
 

A pulsão pede um objeto, mas que não é específico, mas que se liga a pulsão pela sua peculiar aptidão para possibilitar a satisfação, que está ligada a história do sujeito, aos seus desejos e fantasias. O objeto não é concebido como uma coisa do mundo que se oferece à percepção mas como uma síntese de representações que Freud denomina “representação – objeto”. O objeto do investimento pulsional, assim como o objeto de desejo é uma representação e não um objeto externo no sentido de uma coisa-do-mundo.
 

O objeto é tal como se dá à nossa experiência, enquanto que a coisa-em-si, é o que se encontra para além do fenômeno e, portanto, para além de qualquer experiência possível. A coisa em si não pode ser conhecida mas pode ser pensada.
 

Para Lacan, “Um objeto é, portanto, aquilo que se coloca diante de nós, como correlato de uma percepção de uma lembrança, de uma imaginação ou de um pensamento”.(Garcia Rosa,p.150)
 

A coisa caracteriza-se pela sua “posição autônoma” e pode ou não tornar-se um objeto na medida em que se coloca diante de nós, seja numa percepção ou numa lembrança. O que caracteriza uma coisa é o fato dela manter-se em si mesma como autônoma.
 

No texto de Garcia Rosa, Freud se refere a coisa como objeto perdido, embora nunca o tenhamos tido, e que deve ser reencontrado. Ele é um vazio, que se encontra além da representação, podendo apenas ser pensado. Freud supõe um momento mítico, no começo de tudo, quando teríamos a posse da coisa. Daí por diante, seríamos lançados numa busca infindável dessa coisa perdida, embora nunca a tenhamos tido verdadeiramente. Nessa procura da coisa, forma-se a trama das representações através dos caminhos da memória. Essa busca é regida pelo princípio do prazer. O aparato psíquico, tendo como referência a experiência de satisfação, produz uma ação específica cujo objetivo é reproduzir essa experiência. É a demanda do desejo satisfeito que funda o inconsciente humano.
 

No projeto de 1895, Freud nos fala da experiência de satisfação e a partir da primeira experiência, estabelece-se uma facilitação ou um diferencial na trama dos neurônios, de tal modo que ao se repetir o estado de necessidade surgirá um impulso psíquico que procurará reinvestir a imagem mnêmica do objeto com a finalidade de reproduzir a satisfação original. Esse impulso é o que Freud chama de desejo. Nenhum objeto satisfará a pulsão. O objeto serve para marcar uma falta, um vazio irredutível, o fato de que para a pulsão o objeto está para sempre perdido.
 

Por fonte da pulsão entende-se aquele processo somático, interior a um órgão ou a uma parte do corpo, cujo estímulo é representado na vida anímica pela pulsão.
 

A pulsão está além da distinção entre consciente e inconsciente, para além portanto do espaço da representação, não se fazendo presente no psiquismo a não ser por seus representantes psíquicos.
 

Todas as pulsões são qualitativamente da mesma índole, se há alguma distinção entre elas é pela magnitude da excitação. Continua o mesmo ponto de vista do projeto do 1895, onde Freud afirma que o aparato psíquico recebe, a partir de seu exterior apenas quantidades (Q) e não qualidades.
 

A distinção ficou entre as pulsões sexuais das pulsões de autoconservação ou pulsões do eu. Para melhor compreender, a libido designa apenas a energia das pulsões sexuais.
 

Os termos pulsões de autoconservação e pulsões do eu são comumente empregados como sinônimos. Pulsões de autoconservaçao designa as necessidades ligadas às funções corporais cujo objetivo é a conservação da vida do indivíduo. Por se supor que o eu esteja a serviço da conservação do indivíduo, faz-se corresponder as pulsões de autoconservação às pulsões do eu, empregando-se os termos como sinônimos.
 

A partir de “Para Introduzir o Narcisismo” [10], a questão torna-se mais complexa, pois Freud introduz a idéia de que o eu é também objeto de investimento das pulsões sexuais, e esta é a idéia central do conceito de narcisismo, a de uma relação amorosa que o sujeito mantém com seu próprio eu.
 

No texto de 1914, sobre o Narcisismo, considera: “Narcisismo – é a atitude de uma pessoa que trata seu próprio corpo da mesma forma pela qual o corpo de um objeto sexual é comumente tratado – que o contempla, vale dizer, o afaga e o acaricia até obter satisfação completa através dessas atividades” (p. 89).
 

As pulsões de autoconservação ou pulsões do eu tem como energia de investimento o interesse enquanto a libido designa as pulsões sexuais. A solução encontrada foi distinguir entre libido do eu e libido objetal.
 

Passamos agora a conhecer os caminhos ou as vicissitudes da pulsão. Garcia Rosa, refere que Freud utilizou outros termos para definir vicissitudes, como destino, aventura. Triebschicksale pode ser traduzido como vicissitudes ou caminhos da pulsão, porém vicissitudes mantém presente a idéia de errância que é a marca da pulsão. O alvo da pulsão é a satisfação, mas o caminho em direção ao alvo não se dá de forma direta e imediata mas passa pelo objeto. Este caminho esbarra nas exigências da censura, e esta é a razão porque Freud apresenta os destinos da pulsão como sendo ao mesmo tempo variedades da defesa contra as pulsões. A pulsão não pode ser destruída, mas uma vez tendo surgido ela busca a satisfação, mesmo que parcial. Para Freud existem dois representantes psíquicos da pulsão: a idéia e o afeto.
 

Os destinos do afeto, ou o que podemos chamar de destinos clínicos do afeto, segundo Garcia Rosa, foram apontados por Freud muito tempo antes, numa carta a Flies datada de 21 de maio de 1894, quando ele distingue três mecanismos: Transformação do afeto (histeria de conversão); Deslocamento do afeto (idéias obsessivas) e Troca de afeto (neurose de angústia e melancolia).
 

O afeto é entendido por Freud como pura intensidade. Embora afeto se ligue originalmente a uma representação, este pode se deslocar de uma representação para outra sem ficar preso a uma delas.
 

No artigo sobre Pulsões e Destinos de Pulsão, Freud aponta quatro destinos para as pulsões sexuais, e que trata dos destinos do representante ideativo.

Os destinos do representante ideativo são:

Ø Transformação no contrário;

Ø retorno para a própria pessoa;

Ø recalcamento e

Ø sublimação
 

A Transformação no contrário e o Retorno para a Própria Pessoa, pode ser pelo objeto ou pelo conteúdo. Pelo objeto é expresso pela inversão da atividade para a passividade, pelo par de opostos sadismo-masoquismo e no voyerismo–exibicionismo. A transformação quanto ao conteúdo ocorre na mudança do amor em ódio.
 

A intensidade com que a ambivalência se apresenta varia de indivíduo para indivíduo assim como em diferentes grupos sociais. Freud admite que sua presença em grau elevado é índice da permanência de uma herança arcaica ( Garcia Rosa, p. 125).
 

A Transformação no Contrário, passa por dois processos diferentes: uma mudança da atividade para a passividade e uma reversão de seu conteúdo. (Ex.: sadismo – masoquismo). A reversão afeta apenas as finalidades das pulsões. A finalidade ativa ( torturar, olhar) é substituída pela finalidade passiva (ser torturado, ser olhado). A reversão do conteúdo encontra-se no exemplo isolado da transformação do amor em ódio.
 

O Retorno para a Própria Pessoa se torna plausível pela reflexão de que o masoquismo é, na realidade, o sadismo que retorna em direção ao próprio ego do indivíduo, e de que o exibicionismo abrange o olhar para o seu próprio corpo. A essência do processo é a mudança do objeto, ao passo que a finalidade permanece inalterada.
 

Uma vez ocorrida a transformação em masoquismo, a dor é muito apropriada para proporcionar uma finalidade masoquista passiva, pois temos todos os motivos para acreditar que sensações de dor, assim como outras sensações desagradáveis, beiram a excitação sexual e produzem uma condição agradável, em nome da qual o sujeito, experimentará de boa vontade o desprazer da dor.

Uma vez que sentir dor se transforme numa finalidade masoquista, a finalidade sádica de causar dor, também pode surgir, retrogressivamente, pois, enquanto essas dores estão sendo infligidas a outras pessoas, são fruídas masoquisticamente pelo sujeito através da identificação dele com o objeto sofredor. Não é a dor em si que é fruída, mas a excitação sexual concomitante.(Freud, p. 149) [11]

 

Sentimentos de piedade também pode ser entendido como formação reativa de outros sentimentos.
 

A acentuada ambivalência pulsional num ser humano que vive nos dias atuais pode ser considerada como uma herança arcaica, pois temos motivos para supor que o papel desempenhado na vida pulsional pelos impulsos ativos em sua forma inalterada foi maior nos tempos primevas do que é em média hoje em dia.
 

A mudança de conteúdo de uma pulsão em seu oposto é observada na transformação do amor em ódio – onde é comum existir ambos os sentimentos dirigidos para o mesmo objeto (a mesma mãe que se ama, se odeia) – sua coexistência oferece o exemplo mais importante de ambivalência de sentimento.
 

Para Freud, em 1915, o amor não admite apenas um, mas três opostos :

Ø amar – odiar;

Ø amar – ser amado;

Ø amar – desinteresse ou indiferença.
 

Amar e ser amado corresponde a transformação da atividade em passividade. Essa situação é a de amar-se a si próprio, considerado como traço característico do narcisismo. Então, conforme o objeto ou o sujeito seja substituído por um estranho, o que resulta é a finalidade ativa de amar ou a passiva de ser amado, ficando a segunda perto do narcisismo.
 

Podemos entender como Narcisismo:
 

Originalmente, no começo da vida mental, o ego é catexizado com os instintos(pulsões), sendo, até certo ponto, capaz de satisfazê-los em si mesmos. Denominamos essa condição de narcisismo, e essa forma de obter satisfação de auto-erótica. Nessa ocasião, o mundo externo não é catexizado com interesse, sendo indiferente aos propósitos de satisfação. Durante esse período, o sujeito do ego coincide com o que é agradável, e o mundo externo, com o que é indiferente. Se definirmos o amor como relação do ego com suas fontes de prazer, a situação na qual o ego ama somente a si próprio e é indiferente ao mundo externo, ilustra amor – ódio, como primeiro dos opostos que encontramos para o amor. (Freud, 1915,p.156) [12]
 

Na medida que o ego é auto-erótico, não necessita do mundo externo, mas em conseqüência das experiências sofridas pelos instintos de autopreservação, ele adquire objetos daquele mundo e, na medida em que os objetos constituem fontes de prazer, ele os introjeta e expele o que se torne causa de desprazer.
 

O ego da realidade original que distingue o interno do externo por um critério subjetivo se transforma num ego de prazer purificado. Isola uma parte do próprio eu, que projeta no mundo externo e sente como hostil. Após esse novo arranjo, as duas polaridades coincidem mais uma vez: o sujeito do ego coincide com o prazer e o mundo externo com o desprazer ( com o que anteriormente era indiferente).
 

Quando a fase narcisista sede lugar à fase objetal, o prazer e o desprazer significam relações entre o ego e o objeto. Se o objeto é fonte de sensações agradáveis ele é incorporado ao ego. É a atração exercida pelo objeto que proporciona prazer, assim dizemos que amamos esse objeto. Por outro lado, se o objeto produz sensações desagradáveis, há uma repulsão do objeto e o odiamos. Esse ódio pode intensificar-se ao ponto de uma inclinação agressiva contra o objeto, uma intenção de destruí-lo.
 

Poderíamos dizer que um instinto(pulsão) “ama” o objeto no sentido do qual ele luta por propósitos de satisfação, mas dizer que um instinto(pulsão) “odeia” um objeto, nos parece estranho. Assim, tornamo-nos cônscios de que as atitudes de amor e ódio não podem ser utilizadas para as relações entre os instintos(pulsões) e seus objetos mas estão reservadas para as relações entre o ego total e os objetos.(Freud, 1915,p.159)[13]

Não amamos os objetos que servem de autopreservação, necessitamos deles. O amor está mais na relação de prazer entre o ego e o objeto e se fixa a objetos sexuais no sentido mais estrito e aqueles que satisfazem as necessidades das pulsões sexuais sublimados.

Os verdadeiros protótipos da relação de ódio se originam não da vida sexual, mas da luta do ego para preservar-se e manter-se.

O ego odeia, abomina e persegue, com intenção de destruir, todos os objetos que constituam uma fonte de sensação desagradável para ele, sem levar em conta que significam uma frustração quer da satisfação sexual, quer da satisfação das necessidades autopreservativas.

“O amor deriva da capacidade do ego de satisfazer auto-eroticamente alguns dos seus impulsos instintuais pela obtenção do prazer do órgão. É originalmente narcisista, passando então para objetos, que foram incorporados ao ego ampliado, e expressando os esforços motores do ego em direção a esses objetos como fontes de prazer. Torna-se intimamente vinculado à atividade dos instintos sexuais ulteriores e, quando estes são inteiramente sintetizados, coincide com o impulso sexual como um todo”.(Freud,1915, p.160)

As fases preliminares do amor surgem como finalidades sexuais provisórias. Na fase mais elevada da organização sádico-anal pré-genital, a luta pelo objeto aparece sob a forma de uma ânsia de dominar, para o qual o dano ou o aniquilamento do objeto é indiferente. Depois de estabelecida a organização genital é que o amor se torna o oposto do ódio.
 

O ódio que se mescla ao amor provém de fases preliminares do amor não inteiramente superadas. Isso nos permite compreender como o amor, com tanta freqüência se manifesta como ambivalente, acompanhados de impulsos de ódio contra o mesmo objeto.
 

A transformação do amar em ser amado corresponde à atuação da polaridade da atividade e da passividade.
 

A sublimação é apontada por Freud como um dos destinos da pulsão. “Distinguimos com o nome de sublimação certa classe de modificações do alvo e mudança da via do objeto na qual intervém nossa valoração social” (Garcia Rosa, p. 132).
 

No texto Para introduzir o Narcisismo, Freud nos fornece uma definição: “A sublimação é um processo que diz respeito à libido de objeto e consiste em que a pulsão se volta para outra meta, distante da satisfação sexual; o acento recai então no desvio em relação ao sexual” (Garcia Rosa, p. 133) [14].
 

Nem por isso a sublimação deixa de ser uma forma de satisfação da pulsão, é como se a pulsão sexual encontrasse satisfação num mundo não sexual. A sublimação não é uma exclusão da satisfação, mas uma das modalidades possíveis de satisfação.
 

Para Garcia Rosa, as pulsões sexuais são extraordinariamente plásticas podendo substituir-se umas às outras de modo a canalizar para si uma a intensidade da outra como se formassem uma rede de vasos comunicantes.
 

A sublimação descreve algo que ocorre com a pulsão, mas que corresponde à libido de objeto e para isso o objeto precisa ser aceito ou valorizado socialmente. O artista transfere seu interesse, sua libido para a fantasia, obtendo um alívio e consolo provisório. Também o artista possibilita aos outros extraírem prazer e alívio de suas próprias fontes inconscientes obtendo assim gratidão e admiração.
 

O uso da função da pulsão não tem para nós outro valor se não o de por em questão o que é da satisfação. A sublimação consiste em substituir um alvo sexual por outro não sexual e com isso uma substituição de objeto. Seja qual for a atividade sublimada, sua origem é sempre sexual e a energia permanece a libido.
 

Na sublimação há que se manter um mínimo de atendimento às exigências corporais, o que significa que a sublimação está a serviço do sexual ao invés de se dar às expensas do sexual. Se toda satisfação fosse obtida por sublimação, talvez faltasse a intensidade necessária para comover nossa corporeidade ( Garcia Rosa, p. 135).
 

Como destino da pulsão, a sublimação está presente desde o começo, desde o surgimento das pulsões sexuais parciais como um dos destinos possíveis, paralelamente ao recalque e não em decorrência dele.
 

A formação de um ideal de ego e a sublimação se acham relacionadas, de forma bem diferente à causação da neurose. A formação de um ideal aumenta as exigências do ego, constituindo o fator importante da repressão; a sublimação é uma saída, sem envolver repressão.
 

No texto sobre o Narcisismo[15], Freud diz que a relação entre a formação de um ideal e a sublimação é que:

A sublimação é um processo que diz respeito à libido objetal e consiste no fato de o instinto (pulsão) se dirigir no sentido de uma finalidade diferente e afastada da finalidade de satisfação sexual; nesse processo a tônica recai na deflexão da sexualidade. A idealização é um processo que diz respeito ao objeto – que é engrandecido e exaltado na mente do indivíduo ( p. 111).
 

Em Leonardo da Vinci, ‘Uma Recordação de sua Infância’[16], Freud diz que a criação do artista proporciona, também uma válvula de escape para seu desejo sexual. A repressão quase total de uma vida sexual real não oferece as condições mais favoráveis para o exercício das tendências sexuais sublimadas.
 

Também no texto de Freud, ‘O caminho da Formação dos Sintomas’,[17] diz que o objetivo da atividade mental no sentido de obter prazer e evitar o desprazer é no sentido de dominar as quantidades de excitação que atuam no aparelho mental e em conter sua acumulação, capaz de gerar desprazer. Um caminho que conduz, da fantasia, de volta à realidade é o caminho da arte. Um artista é, em princípio um introvertido. Deseja conquistar honras, poder, riqueza fama e o amor das mulheres; mas faltam-lhe os meios de conquistar essas satisfações. Afasta-se da realidade, pela capacidade de sublimação e frouxidão nas repressões, e transfere toda libido para as construções plenas de desejo. Consegue através de sua fantasia alcançar as honras, poder e amor almejados.
 

Para Garcia Rosa, a partir de 1920, em Além do Princípio do Prazer,[18] a teoria das pulsões sofre uma mudança radical, com a introdução da pulsão de morte. Desde1895 Freud faz referência às pulsões como algo externo ao aparato psíquico, mas a natureza das pulsões ainda não está, nessa época, plenamente determinada. A própria distinção entre pulsões sexuais e de autoconservação, juntamente com a idéia de apoio, é ainda uma incapacidade de pensar as pulsões autonomamente.
 

Freud distingue inicialmente as pulsões de autoconservação ou pulsões do eu e as pulsões sexuais. As pulsões do eu e as pulsões sexuais visam o prazer do órgão e as pulsões de autoconservação visam à autoconservação do indivíduo. Após o conceito de narcisismo, em 1914, o “Eu” passa a ser também objeto de investimento libidinal o que torna frágil a distinção estabelecida anteriormente. Apesar de frágil, esse primeiro dualismo pulsional é mantido até 1920 quando, “ Em Além do Princípio do Prazer”, Freud propõe o novo dualismo pulsional: Pulsão de vida – que passa a englobar as pulsões sexuais e as de autoconservação e, pulsão de morte. Para Freud nenhuma das pulsões se apresenta em seu estado puro.
 

“Parece, então, que um instinto é um impulso, inerente à vida orgânica, a restaurar um estado anterior de coisas”, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob a pressão de forças perturbadoras externas, ou seja, é uma espécie de elasticidade orgânica, ou, para dizê-lo de outro modo, a expressão da inércia inerente à vida orgânica. ( Freud, 1920 p.54-53)
 

Pulsões de vida e pulsões de morte apresentam-se sempre misturadas. Enquanto as pulsões de vida são numerosas e ruidosas, a pulsão de morte é invisível e silenciosa.
 

Em 1930, em “ O mal estar na Cultura”[19], Freud afirma a absoluta autonomia da pulsão de morte, entendida como pulsão de destruição, concebida como “disposição pulsional autônoma, originária do ser humano”. A partir desse momento, destrutividade e sexualidade passam a ser consideradas com inteira autonomia uma com respeito à outra.
 

A autonomia da pulsão de morte entendida como pulsão de destruição é consistente como idéia de que a pulsão, por se situar além da representação, além da ordem, além do princípio do prazer, é pura dispersão, pura potência dispersa.
 

O conceito de pulsão de morte introduz na teoria psicanalítica a possibilidade de se pensar uma região do campo psicanalítico, concebido como caos pulsional, oposto à ordem do aparato psíquico e apresenta como conseqüência a queda da hegemonia do princípio do prazer.
 

Designa para Freud as pulsões de morte enquanto voltadas para o exterior. A meta da pulsão de agressão é a destruição do objeto.
 

Pulsões de Morte designa uma categoria fundamental de pulsões que se contrapõe às pulsões de vida e que tendem para a redução completa das tensões, isto é, tendem a reconduzir o ser vivo ao estado anorgânico. Voltadas inicialmente para o interior e tendendo à autodestruição, as pulsões de morte seriam secundariamente dirigidas para o exterior, manifestando-se então sob a forma da pulsão de agressão ou de destruição”.[…] As pulsões de vida tendem a constituir unidades cada vez maiores, e a mantê-las. As pulsões de vida, também designadas pelo termo “Eros” , abrangem não apenas as pulsões sexuais propriamente ditas, mas ainda as pulsões de autoconservação (Laplanche e Pontalis, p. 407)[20]
 

O recalcamento, citado por Freud como um dos caminhos da pulsão, poderá ser analisado em outros trabalhos.
 

Conclusão
 

A elaboração de um trabalho gera perspectivas, sonhos e resultados. Envolve empenho e dedicação, possibilitando oportunidades para se conhecer um pouco mais sobre o assunto.
 

O tema pulsão, que é abrangente, permitiu operar itens relevantes para a sua compreensão. Sendo um processo dinâmico que busca a realização de desejos, propiciou em seu desenvolvimento satisfação e uma melhor compreensão da temática proposta.
 

Como diz Garcia Rosa, a satisfação é o alvo da pulsão e, somente é obtida pela descarga plena da excitação – o que é impossível. A insatisfação é o estado permanente do ser humano, (apenas com satisfação parcial). A mais explicita atividade sexual, assim como a mais sublimada atividade de um indivíduo, estão eqüidistantes do natural. Supõe-se que a atividade sexual propriamente dita possibilite uma maior liberação da tensão do que uma atividade não sexual. É preciso uma dose certa de satisfação direta, pois, nem tudo pode ser sublimado. O que sustenta a sublimação é o fato dela ser socialmente valorizada.
 

A satisfação não é atingida plenamente, não pela falta de meios adequados, mas pela própria natureza da pulsão. Uma satisfação plena é impossível de ser atingida, mas em troca existe a satisfação parcial, sempre atingida, que pode ser pela sublimação, postergação, recalcamento, realização sexual e demais destinos da pulsão. “O problema não está na impossibilidade da pulsão ser satisfeita, mas nas mil e uma maneiras dela ser parcialmente satisfeita” (Garcia Rosa, 1995,p.90).
 

As pulsões sexuais fazem-se notar por sua plasticidade; sua capacidade de alterar suas finalidades; sua capacidade de se substituírem que permite uma satisfação pulsional ser substituída por outra, e por sua possibilidade de se submeterem a adiamentos. Os impulsos provenientes de uma fonte pulsional, ligam-se àquelas que provém de outras fontes e compartilham de suas vicissitudes; uma satisfação pulsional pode ser substituída por outra.
 

Escrever este trabalho foi gratificante e, com certeza, me remeteu a outros caminhos que se seguirão em outros trabalhos e na busca de um maior conhecimento.
 

Neste trabalho também a pulsão se fez presente, mesmo que de forma sublimada, possibilitando a realização de um desejo na busca da satisfação.



Bibliografia

1. ROSA, Luiz Alfredo Garcia. Introdução a Metapsicologia Freudiana. Vol. 3, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

2. LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. Vocabulário de Psicanálise. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

3. X Encontro Nacional de Administradores e Psicólogos – O Resgate do Homem – Diferencial Competitivo na Era da Excelência – Revista Anais de1996;

4. FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987

4.1. Além do princípio do prazer, 1920 – Vol. XVIII

4.2. Ansiedade e Vida Pulsional, Conferência XXXII, 1932 – Vol. XXII

4.3. Carta 52, 1896 – Vol. I

4.4. Carta 75, 1897 – Vol. I

4.5. Narcisismo, 1914 – Vol. XIV

4.6. O caminho da formação dos sintomas, Conferência XXIII, 1916 – Vol XVI

4.7. O instinto e suas vicissitudes, 1915 – Vol. XIV

4.8. O mal estar da civilização, 1930 – Vol. XXI

Projeto, (1950 [1895]) – Vol. I
 

Notas

[1] Revista O Resgate do Homem – 1996

[2] Laplanche e Pontalis – Vocabulário de Psicanálise – 1995

[3] Garcia Rosa- Introdução à Metapsicologia Freudiana – 1992

[4] Freud- Instinto e suas Vicissitudes – 1915

[5] Freud – Projeto – 1895

[6] Freud – Nota de rodapé do projeto

[7] Freud, Projeto – 1895

[8] Freud – Carta 75 – 1897

[9] Freud – Carta 52 – 1896

[10] Freud – Para Introduzir o Narcisismo – 1914

[11] Freud – Instinto e Suas Vicissitudes – 1915

[12] Freud – Instinto e suas Vicissitudes – 1915

13] Freud – Instinto e suas Vicissitudes – 1915

[14] Freud – Para Introduzir o Narcisismo – 1914

[15] Freud – Narcisismo – 1914

[16] Freud – Leonardo da Vinci – Uma recordação de sua Infância – 1910

[17] Freud – O Caminho da Formação dos Sintomas – Conferência XXIII – 1916

[18] Freud – Além do Princípio do Prazer – 1920

[19] Freud – O Mal Estar da Cultura – 1930

[20] Laplanche e Pontalis – Vocabulário de Psicanálise – 1995