Tratamento psicanalítico:
o desejo e sua interpretação

 

Gabriel Balbo

Gabriel Balbo abre sua caixa de ferramentas e aponta para a chave mestra de seu oficio: a fala do analisante, em cujo texto se lê, nas entrelinhas, a impessoal cadeia significante do Outro. O desejo e sua interpretação encontram-se no texto fundador da psicanálise, e a instigante postulação freudiana, segundo a qual “o sonho é uma realização de desejo”, lança esse como elemento inconsciente nuclear em uma análise e em seus desdobramentos. O que faz o psicanalista com os sonhos que brotam em uma análise? Com os próprios sonhos e aqueles do analisante? Hamlet teria sido um sonho de Shakespeare?
 

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Apresentação

 

          Partimos do pressuposto enunciado por Lacan de que o estado do sujeito, tanto na neurose quanto na psicose ou na perversão, depende do que se desenrola no Outro, ou seja, o inconsciente é o discurso do Outro, cuja sintaxe nos chega pelos fragmentos que constituem as ditas formações do inconsciente. O acesso a esta impessoal cadeia significante no Outro, eixo teórico da direção do tratamento, como Gabriel Balbo já nos havia alertado há bastante tempo, se faz pelo mais banal recurso de que dispomos: a fala.

          Essa cadeia significante - que incide na cria humana e a desnatura, subvertendo em demanda e desejo a totalidade das necessidades que a assolam - é o solo fértil do trabalho do psicanalista. O desejo que pode habitar e morder cada um dos falantes vem do campo do Outro, é sempre desejo do Outro. Se estamos de acordo com isso, o que seria então sua interpretação? Quais as condições para que uma análise possa acontecer? O que faz um analista? No que consiste então uma análise? E o desejo, como se opera com isso no trabalho psicanalítico cotidiano? E o lugar do sonho em uma análise?

          Estávamos enredados nessas múltiplas questões que a leitura do seminário O desejo e sua interpretação (1958-1958), de J. Lacan, suscitava em cada um de nós, quando Gabriel Balbo aceitou nos trazer sua leitura do que Lacan disse sobre o desejo e sua interpretação. Assim, para lidar com perguntas tão radicais, ele apresenta uma tessitura entre o desejo de análise, a análise do desejo, o desejo do analista e a análise de desejos (transferência de desejo e desejo de transferência), tendo como fio condutor o sonho, no cruzamento entre línguas, em direção ao que seja a letra no inconsciente.

          Diante de nossa perplexidade em face de enunciados paradoxais emitidos por Lacan, como, “o desejo é a metonímia do ser no sujeito; o falo é a metonímia do sujeito no ser”, ele nos esclarece sobre a sutil distinção lacaniana entre o desejo, o objeto a que o causa e o significante da falta de um significante, que é o falo simbólico. Este, como significante subtraído à cadeia da fala, condiciona toda a relação com o Outro e faz com que todos os outros significantes existam. Dessa forma, o falo é o conceito e o significante do complexo de castração, de tal modo que, qualquer que seja, toda a relação com o Outro ou com o semelhante será marcada por uma falta, por uma castração.

          Qual a novidade dessa postulação lacaniana para a clínica da neurose, da perversão e da psicose? Deixamos ao leitor a tarefa de percorrer o texto que lhe alcançamos e verificar se alguma novidade nele se encontra.

          Assim, Tratamento psicanalítico: o desejo e sua interpretação é o resultado do ciclo de conferências promovido pela Escola de Estudos Psicanalíticos em outubro e novembro 2014 e ministrado por Gabriel Balbo, a quem agradecemos pela generosidade em partilhar conosco sua apreensão conceitual da prática psicanalítica.

 

Mario Fleig