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Palavra Inicial

 

.........A Escola de Estudos Psicanalíticos constituiu-se como instituição (um analista, que é um qualquer, não se autoriza a sê-lo a não ser por si mesmo e alguns outros) em torno das questões da formação do psicanalista e da transmissão da psicanálise. Assim, é um lugar que reúne psicanalistas tocados por interrogações que brotam da clínica cotidiana e requerem ser confrontadas com o conceito. Contudo, face aos efeitos subjetivos e sociais transtornantes provocados por inovações tecnocientíficas inusitadas, determinando surgimentos de um neosujeito regido por uma nova economia psíquica, nos perguntamos: A prática clínica que exercemos terá ainda um lugar no universo psíquico e social das novas gerações conformadas pelo digital? O fazer do analista não se desvelará como um simples engodo? De certo modo sim, pois engodo está no íntimo de nossa condição humana, dado que o significante se define por sua equivocação, manifesta nos sonhos, lapsos e sintomas. Entretanto, este engano ínsito não exclui a dimensão da verdade.

.........A respeito do que faz um psicanalista, Freud nos dá a pista na primeira frase de A interpretação dos sonhos: Flectere si nequeo superos Acheronta movebo. Se não posso mover os deuses superiores, moverei aqueles que estão abaixo. O desejo recalcado não pode aparecer, mas se pode revolvê-lo no inconsciente, de modo a se ouvir algo do desejo que ignoramos. Se as inovações transtornantes tornam obsoletos modos de existir precedentes, o que nos constitui psiquicamente, a impessoal cadeia significante também seria dispensada? Acreditamos que, se o tecido em que estamos ancorados, a linguagem, perdura como condição necessária, perdurará também a Psicanálise. Voltamos às perguntas primárias: Para que serve uma análise? Como isso começa? Como isso termina? Lacan, leitor atento de Freud, nos dá uma pista no seminário A angústia: As defesas que temos em relação ao que o Outro quer de nós são sempre muito fracas. E o que o Outro quer de nós? Nossa perda, nossa destruição. Por isso nosso temor de estar à sua mercê, à mercê dos deuses, do destino, do semelhante etc. A psicanálise nos oferece um caminho de como nos proteger disso. O nascedouro do sistema de defesa que cada um de nós constrói se encontra em nossa primeira infância, no infans. Conectar-se com o infans que nos funda é revolver os significantes que operam em nós de modo inconsciente. Uma análise implica reencontrar a psicanálise que cada um inventou e caiu sob a amnésia, sem deixar de operar em nós. Haveria uma técnica e uma iniciação para fazer isso? Pergunta que o inventor da Psicanálise respondeu sempre de modo indireto, sem jamais nos dizer como fazer. Cada um que se lança nisso tem que reinventar a partir de suas próprias descobertas e invenções primitivas. Não há como estabelecer um tratamento padrão, organizado em protocolos. Podemos ter conceitos partilhados e orientar-nos por uma ética, o que nos leva a nos reunirmos em uma Instituição. Quais os requisitos para exercer o ofício de psicanalista? Freud nos indica: 1) a análise pessoal, que permite a cada um lidar com a psicanálise que está esquecida em si mesmo, seu infans; 2) apropriar-se do legado de Freud, o conceito, e por ele encontrar o norte; 3) submeter nossa prática à análise de controle, para conter os desvarios da subjetividade; 4) partilhar com seus pares as diferenças e as semelhanças, instituindo um espaço comum, na forma de instituição.

.........A psicanálise é uma prática que se põe no espaço público. Não teme mostrar o que faz. Manter as perguntas – o que nos ensina cada um que se submete a uma análise? Por isso é uma descoberta, uma invenção, sempre fascinante e ao mesmo tempo aterradora, pois é na miséria humana que se mexe, e com vara curta. O que pode nos pacificar em face de tantas ameaças é a fala, a palavra, como nos aponta Freud. Quando o primeiro homem encontrou um estranho, ao invés de atirar uma lança, lança a palavra. Aí começa o processo civilizatório, que não exclui o mal-estar. É nestes meandros que se situa o psicanalista em sua prática cotidiana.

 

Mario Fleig

Presidente

Escola de Estudos Psicanalíticos