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Melancolia Infantil e outros textos, de Gabriel Baldo

Elenice Cazanatto
Psicanalista

     Engodo, imutabilidade, imobilidade, um ser acéfalo e assexuado... assim se descreve o sujeito que é autista. Ele não tem autismo. Para as ciências positivistas, ele é autista.
      Eis o autismo, esse objeto de estudo, de experimentações e de pesquisas de várias disciplinas: da psicologia às neurociências, passando pelo cognitivismo ou o geneticismo, a medicina e a farmacologia. Em todos os campos do saber, ele é objeto tanto de cobiça quanto de pretensão e arrogância. O autismo é como uma miragem: não tem nenhuma consistência real, nenhuma consistência simbólica, nenhuma que não seja imaginária.
      O autismo é um furo n’água: Fazer ondas, voltas, desenhar na água, é retomar de dia o que se desfaz à noite; dito de outro modo, é um trabalho teórico e clínico propriamente pulsional que dá resultado apenas por seu próprio movimento.
     No discurso dos pais, uma cena se repete... No início, tudo ia bem – eis um acontecimento exterior, estranho, como uma hospitalização, uma injeção, um exame médico... ou mesmo um terror noturno. Eis que uma reviravolta se produz e, quando lhes devolveram a criança, já não era mais a mesma...
      Alguns traços: inexistência do outro, gestos rudimentares sem cessar, ausência de fala, excesso de audição, defesas contrafóbicas, alucinações negativas...
      Nesta primeira parte do livro, Gabriel Balbo nos traz suas formulações, que ele considera como verdades clínicas, e propõe que o autismo não passa de um significante, uma patologia do traço unário, uma melancolia infantil. O autista é inato porque não nascido, in nato.
      Mas, que efeitos isso tem na clínica? Qual a posição do analista na transferência com o autista? Como situar a melancolia infantil a partir do estádio do espelho?
     Gabriel Balbo finaliza essa primeira parte retomando um caso apresentado por Marika Bergès com a exposição teórica e clínica de Sandrine Calmettes, sobre os mecanismos da violência e da paranoia no adolescente.
      Na segunda parte, o autor traz algumas referências de Lacan a Ludwig Joseph Johann Wittgenstein (1889-1951). Filósofo austríaco naturalizado britânico, Wittgenstein foi aluno de Russel, sendo considerado um dos principais autores da virada linguística na filosofia do século XX. Balbo retoma algumas de suas proposições, em especial, a partir do seminário O avesso na Psicanálise.
Na terceira parte do livro, intitulada “Suicídio ou morte doentia”, Gabriel Balbo nos brinda com uma cena do romance russo Anna Karenina (1877), de Lev Nikolaevitch Tolstoi. Nas suas formulações, a passagem ao ato suicida somente é possível quando há o retorno de uma recordação feliz, alegre. Um retorno que afunda em um ofuscamento da luz. O suicídio é um gozo?
     Filosofia, literatura, religião, sociologia, psicanálise. Luto e melancolia (e outros textos) de Freud. Os três tipos de suicídio. Causas diretas e indiretas. Fenômeno social ou individual? Queda, impossível, perda, desonra, desgosto, tormento, solidão, o gozoso e o doloroso, a morte doentia. O olhar: objeto a. Explicação ou implicação? Essas são algumas referências... outros são significantes percorridos pelo autor.
      Gabriel Balbo finaliza essa terceira parte falando sobre o pensamento suicida em crianças e em adultos obsessivos.
     Nessa obra, como num percurso moebiano entre formulações teóricas e recortes clínicos, Gabriel Balbo traz contribuições muito importantes para a clínica atual, no trabalho não apenas com crianças, mas também com adolescentes e adultos. É do infantil presente em cada sujeito que se trata essa escrita.